Humor, política e machismo
Cláudio Pimentel
O humor é minha oração diária antes e depois de dormir. Sempre foi assim, mesmo quando estou de mau-humor. Não há como ser indiferente ao cotidiano e suas trapalhadas - e não pensar nelas. Dizem que manter os olhos abertos talvez seja o maior talento do homem diante de grandes desafios da história. Concordo, mas vou além: a máxima serve também às pequenas performances do Homem em sua caminhada, ora como herói, ora mártir. Ver um grupo de pessoas, trajando verde e amarelo, chorando escorado nos muros de instituições militares, como se estivessem no Muro das Lamentações, em Jerusalém, é burlesco. A imagem merece estar entre as melhores de 2022, capítulo “Sem Noção”, verbete “Hilário”.
Assim como ocorre no jornalismo, quando grande parcela de repórteres de esportes torna-se em talentosos jornalistas em qualquer outra área, uma grande parcela de escritores satíricos também torna-se ícone em qualquer ramo da literatura. Quando penso nisso, o primeiro nome que me surge é o do jornalista e escritor norte-americano H. L. Mencken (1880 – 1956), que se tornou uma celebridade, no século passado, fazendo humor contra o ridículo e a pieguice que reinavam nos EUA da época. Batia sem pena, mas assim mesmo atraiu uma legião de fãs. O jornalista Paulo Francis, que também não perdoava o que fosse extravagante, escreveu que ele “foi o precursor do moderno e da modernidade americana”. Sem ele aplainando o terreno, escritores como Hemingway e Fitzgerald jamais teriam vingado.
Ao decifrar o Homem e suas qualidades em “O livro dos insultos” (2009), Mencken traz a definição do “Eterno Macho”, versão que parece inspirada em nós cem anos depois, considerando certa valentia recente no país. Segundo o escritor, eles são encontrados aos bandos quando jovens, sempre desafiando uns aos outros, exibindo-se como mais fortes, atraentes, herdeiros de pais poderosos, numa bazófia sem fim. Já maduro, só abre a boca para falar de si mesmo, proezas, bens e conquistas. Tudo que faz é banal, mas se transforma em inédito e glorioso. Se levar o melhor sobre um adversário, estufa o peito, desfere socos em si, como um gorila, e autodenomina-se herói; se levar a pior, apela à falcatrua, à desonestidade do vencedor e se apresenta como mártir. Não fica por baixo. E se esconde atrás de lorotas. Ah, o machismo!
Este mal está presente em todas as estações do tempo. E em seu favor não há humor que se apiede. É um risco à vida. Que o diga Marilyn Monroe, cuja vida pode ser espiada em “Blonde”, filme em exibição numa plataforma “streaming”, com Ana de Armas. A história é chocante. Baseado no livro “Blonde” (1999), da escritora norte-americana Joyce Carol Oates, é um retrato desidratado do machismo em torno de sua carreira, que vai da euforia à depressão e vice-versa, como o respirar de um enfermo. Ela diz que o livro não é biografia, mas um romance inspirado na atriz, que tinha um humor fino e dissimulado, em meio ao turbilhão de traumas. Há, porém, outro livro, “Marilyn e JFK”, do jornalista francês e crítico de cinema François Forestier, que abre os bastidores da musa platinada, revelando os usos e abusos que produtores, diretores e políticos fizeram dela. Ácido como sangue de “Alien”, o livro dispensa amortecedores.
Fico imaginando o que Mencken, que cobriu todas as convenções presidenciais americanas de 1904 a 1948, diria de John F. Kennedy e sua propensão por atrizes de Hollywood, entre elas Marilyn Monroe, a qual mandava buscar onde estivesse para ter alguns momentos de intimidade em algum hotel do mundo? Forestier é categórico: todos sabiam do caso em Washington, mas nada vasava nos jornais. Algumas amantes de Kennedy bateram na porta da imprensa, mas a força financeira, política e empresarial do pai dele, Joe Kennedy, abafava. John foi criado para ser presidente dos EUA. Era uma jóia. Errou mais que acertou, mas sua imagem jamais sofrera arranhões. Só o tiro que o matou em Dallas arranhou a todos nós, tirando um pouco do humor do mundo. O mesmo humor que andava sumido entre nós e agora voltou. Vamos aproveitar.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 11.11.2022
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