Guerra dos mundos
Cláudio Pimentel
A morte de Mikhail Gorbachev (1931 – 2022) empurrou o século XX para mais longe de nós. Último grande líder mundial, estadista de estatura incomum, coube a ele, à frente da poderosa União Soviética, promover, no final dos anos 1980, uma transformação tão espetacular quanto a Revolução Russa, de 1917, conduzida por um antecessor ilustre: Lenin. Gorbachev foi autor de uma inesperada façanha: ditar o fim da Guerra Fria, conflito político, econômico e militar que definiu o nosso modo de viver no pós guerra e colocou em lados antagônicos Ocidente e Oriente. Foi da forma que queria? Não, seguramente. O certo é que o fim das escaramuças deu ao mundo um longevo período de paz e crescimento econômico. Deu também a globalização e grandes sacrifícios aos soviéticos.
A morte de Gorbachev ganhou as manchetes. E, assim como no mundo, os grandes jornais brasileiros o elegeram pai do fim da Guerra Fria, artífice com rara percepção do tempo. Ironia? Talvez. Para mim, um reconhecimento merecido. Na prática, porém, não foi assim. À época, a esquerda mundial caiu de quatro. Da noite para o dia, ficou órfã. Perdeu o farol da liberdade. Liberdade, aliás, ferida, não mais absoluta, mas relativa como a do reflexo de um espelho quebrado – Stalin a maculou. Foi uma decepção. Atordoou a todos. Gorbachev foi chamado de agente da CIA. Fidel Castro classificava tudo como erro histórico. Soljenítsin foi implacável: “Tudo foi destruído pela Glasnost de Gorbachev”. Até o diretor alemão Wim Wenders, se perguntava no filme “Tão longe, tão perto” (1993) - continuação de “Asas do desejo” (1987) -: o que se passou na cabeça dele?
Quando se tornou secretário-geral da União Soviética, Mikhail percebeu que o Urso do oriente sangrava. Estava desmilinguindo-se. Os planos quinquenais mostraram-se inócuos. As últimas administrações tinham sido desastrosas. Sem reformas, dificilmente os soviéticos seriam páreos na sórdida Guerra Fria. A “Perestroika”, reestruturação econômica e social do país, e a “Glasnost”, de transparência nas decisões políticas, seriam a solução. A ideia era modernizar a Federação Soviética e salvaguardar seu futuro a médio prazo. Não houve tempo. O acidente em Chernobyl e os enormes prejuízos financeiros e de imagem precipitaram tudo. Gorbachev perdeu o controle da reforma e a União Soviética implodiu. A queda do Muro de Berlin foi o estopim à debandada geral. E, ao contrário de outras ocasiões, nenhum canhão foi enviado para impedir a fuga do navio. Mais de 40 anos depois, Putin invadiu a Ucrânia. Seria pelo mesmo motivo?
A menção a Putin não é casual. E H.G. Wells, autor de “A guerra dos mundos”, que me perdoe a menção, mas o presidente russo é hoje o artífice de algo parecido com a guerra dos mundos, um “revival” desafinado da Guerra Fria. Dá a impressão de querer juntar os cacos. A Ucrânia, então, se tornou o palco de um novo antagonismo entre Ocidente e Oriente. Um símbolo do conflito entre esses dois mundos, que, de braços abertos, é puxado de um lado e de outro. Putin quer mudar os rumos do planeta, mas falta-lhe estatura. O objetivo é interromper a globalização, a que é tocada pelos Estados Unidos e os membros da OTAN. A neutralidade da China e da Índia no episódio da Ucrânia é a prova de que ele não está sozinho na tentativa de mudar a geopolítica mundial. Eles querem a globalização deles.
Guerras mundiais começam assim, quando as partes antagônicas começam a medir forças. Há uma queda de braços de dimensões apocalípticas. Vivemos tempos perigosos, carentes de lideranças da estatura de um Gorbachev, Roosevelt ou Churchill. Barack Obama tinha brilho para tanto, mas ofuscou-se. Seria o primeiro grande líder do milênio. Mas não deu. Falta alguém com uma visão oposta à do Dr. Fantástico, de Kubrick. Depois da pandemia, o Oriente teve a certeza de que não pode ser conduzido pelo Ocidente. E o Ocidente a certeza de que deve conduzir tudo, e ao seu jeito. Temos lideranças erráticas, imediatistas, turbinadas pelos interesses do grande capital, que está dividido. Há que surgir um novo líder. Ele está por aí. Sua missão: esfriar ânimos. O milênio está só começando. Merece algo melhor. A espada de Dâmocles flutua sobre nossas cabeças.
Cláudio Pimentel é jornalista
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