sexta-feira, 26 de agosto de 2022

crônicas

As Fake News dão vida à pólio

Cláudio Pimentel

         Quis o destino que o Brasil, tal como na terra dos Faraós, virasse alvo das “Sete Pragas”. Isto em pleno século XXI! Quando veio a primeira, o “resultado da eleição presidencial”, ainda não estava claro que ele estaria operando uma farsa, tendo o Egito como tragédia. A profecia marxista só viria ganhar corpo quando veio a segunda praga: a “pandemia”. E, logo, em seguida, a terceira: a “incapacidade federal em combater o Covid”. O país, então, foi à lona e o árbitro abriu contagem até dez. Mas ainda havia as pragas restantes, que vieram de bando: “centrão”, “inflação”, “filhinhos do papai” e “Fake News”. Esta última dá vida a um inimigo atroz: a poliomielite. Seu retorno será um nocaute no país.

A paralisia infantil já deveria estar extinta. Em decorrência de nações vítimas da pobreza e outras da ignorância, ainda é ameaça. Não deveria. A vacina é eficaz, seja em gota ou intramuscular, mas campanhas negacionistas propõem boicote, alegando motivos fantasiosos. Há quem os leve a sério. Pura ignorância. A demonização é feita nas redes sociais em vários países. No Brasil, contam até com o estímulo de autoridades. O Zé Gotinha, estrela da vacinação em massa de crianças, caiu em desgraça. Razões ideológicas feriram-no gravemente. Prevaleceu a crendice e a superstição. E condenaram a ciência. Buscou-se as trevas. A vacina contra o Covid sofreu os mesmos desgastes. O próprio presidente a acusou de transmitir Aids. A do sarampo também foi desacreditada. O certo é que ninguém virou jacaré depois de vacinado.

Ao contrário do nosso, Franklin Roosevelt, que é considerado um dos três maiores presidentes americanos - os outros são Washington e Lincoln – tratou a poliomielite como se trata uma guerra. Com força. Fez isso enquanto enfrentava outras duas: o “crash” da Bolsa, em 1929; e a Segunda Guerra. Foi vitorioso nas três. Contra a pólio, lutou em dois campos: consigo mesmo, pois ficou paraplégico devido a ela, em 1921, aos 39 anos, o que poderia ter abreviado sua carreira; e nos EUA, investindo na cura, promovendo programas de fisioterapia para recuperar vítimas de paraplegia e desfazendo o mito de que a pólio era um castigo divino, direcionado aos pecadores. Que pecados teriam as crianças?

Da infância à maturidade, a minha geração conviveu com colegas, conhecidos e parentes vítimas da paralisia infantil. Não foram poucos. Lembro-me que muitas mães diziam que a doença era um castigo para pessoas que foram más em outras vidas. Coisa do carma. O disparate só não é mais cruel que a própria doença, que deixa marcas mais profundas do que as aparentes no corpo. Machuca a alma. É uma bomba nos nervos, nas entranhas, nos sentidos. É percebido num olhar triste, furioso ou distante, como se fosse apagar, de quem se infectou. Quem pega, pula etapas na vida. Amadurece antes da hora. Troca a bola pelo inconformismo e a bicicleta pela injustiça do destino.

         As mentiras espalhadas pelos negacionistas causam estragos e estão por trás dos baixos números de crianças de até cinco anos vacinadas, neste ano, contra a poliomielite em Salvador. É um retrato do que ocorre no país. É a confirmação ano a ano da queda na procura. Na capital baiana, a vacinação alcançou somente 1,65% do público-alvo nos oito primeiros dias de imunização. A meta é vacinar cerca de 152 mil crianças, mas apenas 2.500 tinham comparecido aos postos para receberem a dose. É incompreensível a decisão dos pais em negar a vacina a seus filhos. É incompreensível que os exponham a uma doença tão estúpida. Nada justifica. Filhos devem ser amados e protegidos acima de tudo e de todos. Não há perdão para pais que condenam os filhos a sofrerem a dor de uma vida inteira. Não há perdão para Fake-Pais.

Claudio Pimentel é jornalista

ociorecrativo13.blogspot.com - 26.08.2022

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