sexta-feira, 18 de setembro de 2026

crônicas

A estrela da hora

Cláudio Pimentel

         Entre os personagens que deram vida à ópera bufa do Supremo, um nome, Clarice Lispector, não merecia ter sido mencionado no festival de testosterona que o “pleno” do tribunal ganhou dos togados velhinhos. Autora de romances, contos, crônicas e ensaios, ela é reconhecida como uma das escritoras mais importantes do século XX. O deslize foi da ministra Cármen Lúcia que, expôs, assim, sua tristeza com os colegas que já ameaçavam tornar o local no quarto círculo de Dante: “Eu não me perdi, mas experimentei a perdição”, entoou, sugerindo não pertencer àquela turba.

         Clarice Lispector também foi jornalista. Tinha um talento especial para entrevistas. Ela começou em 1940, na Agência Nacional, e publicou as primeiras reportagens e entrevistas na revista “Vamos Ler!” e no jornal “A Noite”. Enquanto as notícias sobre a Segunda Guerra Mundial inundavam os jornais, ela contribuía com uma entrevista com um embaixador, um intelectual ou um político importante. Fico imaginando como Clarice, que é autora do romance “A Hora da Estrela”, entrevistaria a estrela da hora, a ministra Cármen, que negou habeas corpus a Lula em 2018, no STF. Ele foi preso e Bolsonaro ganhou a eleição. Um livro “Clarice Lispector – Entrevistas” (2007) foi editado pela Rocco, com os seus principais trabalhos. Uma aula.

         Aliás, Lispector faria muito bem ao mundo da imprensa neste momento. Os jornalões do país voltaram a se unir e pautar seus interesses em nosso cotidiano. E o principal alvo é o Judiciário, o STF. Pedem investigações como se pedissem almas convertidas. Sequer procuram entender o que está acontecendo no país. Querem apenas desclassificar a instituição.

Quando Cármen, por exemplo, lamenta a espetacularização em torno do STF não me parece que seja algo programado pela instituição, mas pela própria imprensa. Os três principais jornais impressos do país saírem no dia da reunião do STF com editoriais na primeira página pedindo investigação para Moraes é espetacularização. São três jornais em um!

         O Judiciário está sendo tratado pela imprensa com o mesmo entusiasmo dos ditadores. A família Bolsonaro deve estar feliz. O judiciário hoje sofre do mesmo mal que o Brasil: está dividido. E com um agravante: um dos lados é fascista. Os “dois ovos” que o ex-presidente colocou no tribunal chocaram e buscam aniquilar os legalistas. E querem vingança contra Moraes. Quando se chega a esse ponto nas relações institucionais, tudo fica ruim. Ninguém mais parece estar falando a verdade ou reivindicando causas legítimas. Tudo vira armação.

         Estou concluindo o livro “Roberto Marinho – O poder está no ar. Do Nascimento ao Jornal Nacional”, de autoria do jornalista Leonencio Nossa. São mais de 500 páginas de um Brasil desengonçado, que se desenvolve por meio do olhar da imprensa e imbricações políticas e econômicas. As organizações Globo tornaram-se um monolito. Seus dirigentes são perfeitos na busca de metas e resultados. Atuam iguais no uso das estratégias. E só desistem quando conquistam o alvo.

Desde a Revolução de 1930 até hoje é assim. Esteve presente no centro de todas as crises. Nesta, já batizada de “sem precedentes no país”, o método das Organizações está cercando tudo. A eleição é o foco. O meu querido professor Newton Carlos disse-me em sonho: “Os magnatas da mídia não querem nem Lula e nem Flávio, mas negociam com o sapo barbudo”.  E por que não com o Flávio? “Ninguém mais quer aventura. Mas se não der, vai com ele mesmo. Depois a gente exonera”.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 18.09.2026

Nenhum comentário:

Postar um comentário