sexta-feira, 15 de maio de 2026

crônicas

As palavras matam

Cláudio Pimentel

         Com o perdão da palavra, as palavras têm vida. Outras vidas. Elas anulam os efeitos da alienação. E, se bem empregadas, educam. Oxigenam mentes e almas. As palavras salvam. E matam também. Elas são traiçoeiras. Quando mal usadas, se vingam. É dever tratá-las com honestidade, frisava Hemingway. O livro é feito de palavras e silêncios. Igualmente a arte. Tem que ter caráter e lisura. As obras de arte só existem plenamente quando um leitor ou espectador vai ao seu encontro e lhe dá vida. De outro modo seriam letras e imagens mortas.

         Nos anos 1980, gostava de acompanhar o fechamento da primeira página do jornal. Cuidava das minhas matérias e, ao encerrar, me dirigia para uma área separada da redação para acompanhar o secretário de redação, Marco Antônio Moreira, o Marquinhos, e seus redatores escreverem as chamadas de páginas e, particularmente, dar os títulos das matérias. O time impunha dois desafios: quem fazia a melhor chamada e o melhor título. Marquinhos ganhava na maioria das vezes. Entre os redatores, porém, havia um que advertia sobre o risco de combinar palavras cujas “almas” eram incompatíveis.

         Apaguei seu nome, mas ele dizia que as palavras tinham vida e, assim como as pessoas, preferiam a companhia daquelas que combinavam com elas. O time, então, pegava no pé dele. Um sarro! Ora perguntavam se “abóbora casava com abóbada” ou se “café aumentava a fé”. O tal redator, um dos melhores que vi, tirava de letra a zoeira. Dizia: “Depois não digam que não avisei. As palavras se vingam”. Nunca me esqueci. Naquela época, mal se tratava o assunto. Hoje não. A discussão está aberta. E tem razão. As palavras devem ser aplicadas como se preenchêssemos um quebra-cabeça, onde tudo se encaixa.

O episódio da cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, “Dark Horse”, em um rápido olhar virou alvo do inexplicável: as palavras estariam se vingando? Em primeiro lugar, não tenho nada contra a obra, que pela qualidade do elenco e dos valores empregados tem perfil de “blockbuster”. A presença da estrela “Jim Caviezel”, que interpreta o ex-presidente, é uma prova disso. Não entendo, entretanto, como foi possível ao ator, de 57 anos, se deixar levar para dentro de uma fria dessas. Conhecido por “A paixão de Cristo” (2004), onde fez Jesus, e “Déjàvou” (2006), encarnando o sanguinário terrorista “Carroll Oerstadt”, Caviezel está correndo riscos.

A denúncia de que “Dark Horse” está sendo produzido com verbas supostamente desviadas do Fundo Garantidor de Créditos, uma entidade privada sem fins lucrativos que protege depositantes e investidores brasileiros muda tudo para quem trabalha em produções honestas. O título do filme traduzido, “Azarão”, é uma metáfora de dois lados, ambos negativos: se for azarão porque ganhou, inesperadamente, a eleição, em 2018, acaba aí. Sua administração foi um caos. Milhares morreram de Covid; e se é azarão porque ele e os filhos são disfuncionais e pés-frios, acertou. Ouvir o senador Flávio cobrando dinheiro de Daniel Vorcaro para pagar o filme é um puro thriller de cinema.

“Dark Horse” até pode chegar aos cinemas, mas o filme foi ferido de morte, assim como a própria candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência. Ela deverá seguir em frente, mas com um único objetivo: atrapalhar o candidato Lula. E, é claro, os outros candidatos da direita que deram uma banana para a família de Jair. É muito provável que um amigo do peito tenha passado a informação do filme para a imprensa. Se der diferente, é sinal de que o Brasil empacou. Mas assustador mesmo é ler comentaristas políticos pedindo calma, que o jogo não acabou, apostando na redenção de Flávio e vingança ao PT. São os mensageiros da extrema direita sempre solícitos e inglórios. As palavras são traiçoeiras. A perfeição é uma miragem.
Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 15.05.2026

 

 

 

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