Felicidade tem fim
Cláudio Pimentel
No mês em que se comemora o Dia Internacional da Felicidade, 20 de março, uma constatação: o mundo está infeliz. E bastante. Não é a primeira e nem será a última vez em que o sentimento se coloca tão apartado dos sentidos. O bem-estar e o prazer que causam, aquela energia que nos torna imortais, se recolheu ao almoxarifado das coisas inúteis. A felicidade vagueia por aí clamando socorro, pregando tolerância, esmolando compreensão. O ambiente do século XXI é tóxico. E a todo instante dá xabu. A tendência é continuar assim.
O pulsar da vida ainda nos mantém vivos, mas sem a felicidade, clara e cristalina como deve ser, fica difícil. A mesquinhez obtusa degenera as relações e estimula o individualismo. Como encher-se de ar, esvaziar-se, agitar-se, vibrar, badalar, cantar, bailar, ir e vir, subir e descer, andar e voar e sambar ao som dos batimentos cardíacos como um Surdão: bum-bum, bum-bum, bum-bum? Impossível! Vale o canto do samba: “Tristeza não tem fim, felicidade sim”. Perdemos o tom. Os jovens do mundo estão mais infelizes do que todas as gerações anteriores.
Mudanças climáticas, guerras, desemprego, inflação, polarização política e solidão são os males que afligem a atual juventude. É algo de doer e não tem nada a ver com perfis atribuídos às gerações passadas, como Baby Boomer, à qual me insiro, X, Y ou Millenials, Z e Alpha. Todas têm suas dificuldades e caprichos, mas qualquer uma delas se sentiria infeliz igualmente hoje. Degringolou. A minha geração teve a Guerra Fria, na qual a bomba atômica era uma companheira; teve a ditadura de 1964, patrocinada por uma elite gananciosa e militares que traíram seus papéis. O destino, porém, compensou com a Contracultura e os Beatles.
A juventude costumava ser considerada uma das fases mais felizes da vida. E a minha foi. Mas relatos e pesquisas de hoje mostram que não é mais assim. O cenário é de terra arrasada. Para ter um bom emprego nos anos 1980, eu precisava morar no Rio de Janeiro – Nova Iguaçu era minha casa. O salário não pagava o aluguel na cidade maravilhosa, especialmente onde se concentrava a maioria dos jornais, revistas, TVs e rádios. Fiquei desapontado, mas não infeliz. Vida que segue. Tentei alternativas e consegui me colocar. A infelicidade perturba agora. E não pela velhice, mas pelo seu estigma. O gangsterismo é a marca dessa época.
Segundo o Relatório da Felicidade, a fase inicial da vida adulta teve uma "virada preocupante". Os jovens da Europa Ocidental e da América do Norte relatam "a menor sensação de bem-estar entre todas as faixas etárias". O documento das Nações Unidas traz a classificação da felicidade por país. O primeiro lugar é da Finlândia pela oitava vez. Brasil e EUA estão fora do top 20. O Brasil subiu oito posições, passando da 44ª, em 2024, para a 36ª, em 2025. Na América do Sul, apenas o Uruguai (28ª) ficou à frente do Brasil. Os EUA caíram para a 24ª posição, a pior de todos os tempos. Alemanha (22ª) e Reino Unido (23ª) também ficaram de fora dos 20.
A molecada bem nutrida do primeiro mundo, porém, tem uma ótima sugestão: incluir a felicidade no planejamento dos países. Nos lugares onde residem, propostas assim talvez não causem surpresa. No Brasil é tabu. O ideal aqui é prometer uma surra no Padre Júlio Lancellotti, por insistir em alimentar moradores de rua. Ou, então, aplaudir um político que cria lei para multar quem doar quentinha a mendigos. Ou melhor: propor prisão para mulheres que fizerem aborto, mesmo sendo vítimas de estupro. Estes viram heróis.
O Brasil se afasta da razão, da civilização e da felicidade quando veículos abrem espaços para que inspiradores de ignomínias, como as acima, façam pronunciamentos para se defenderem com mentiras, se defenderem do indefensável. Rasgar a Constituição é crime. E um mínimo de decência ilumina as ideias, fortalece a democracia e enaltece a instituição, fato que não ocorreu. Foi desabonador. Que fique claro: o réu não é rei.
Cláudio Pimentel é jornalista.
Tribuna da Bahia – 28.03.2025
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