sexta-feira, 21 de março de 2025

crônicas

Esperando Godot

Cláudio Pimentel

         Minha mãe tinha um jeitinho infalível de advertir a mim e meus irmãos, quando nos flagrava contando nuvens no céu, em meio a alguma tarefa deixada de lado: “Ei, Cláudio, está esperando o quê? A morte da bezerra?” Sempre havia alguém por perto, um primo chato ou um vizinho mais chato ainda, para assistir o pito e cair na gargalhada. O flagrante virava deboche e seria lembrado por vários dias. Bezerra pra cá, bezerra pra lá, um tormento. Berros e mugidos compunham a sonoplastia da aporrinhação. Repicavam como sinos no juízo. Uma esculhambação sem trégua. Ficávamos pianinhos nas tarefas seguintes. Hoje, se ouvisse a pergunta, não afinava: “Não. Estou esperando Godot.” Nem Beckett faria melhor!

         “Esperando Godot”, peça escrita pelo dramaturgo, romancista e poeta irlandês Samuel Beckett, Prêmio Nobel de Literatura, em 1969, é um divisor de águas do teatro do século XX, que se afirmou como imagem da vida humana em tempos difíceis, como foi no fim da Segunda Guerra Mundial. E de tempos difíceis como agora, se quisermos lembrar dela (a peça), quando o mundo praticamente parou para esperar o que vai acontecer depois da saraivada de decretos, ordens, ameaças, bravatas, assédios, prisões, execuções, espoliações, destruições e mentiras distribuídas pelo Imperador Trump I, o Mitômano, às capitanias e colônias espalhadas pelo Universo. É como se estivéssemos esperando Godot.

Na peça, Godot jamais apareceu, pelo menos, fisicamente. Só metafórica e poeticamente. No coração ou na mente de quem viu ou leu. Corações e mentes que se sensibilizaram com sua sutil presença. A sensibilidade tornou-se rara na década de 2020. Ouço que estou muito preocupado com Trump, que ele virou uma obsessão. Eu concordo, mas não vejo como ser diferente. Nossas vidas estão nas mãos dele. E a obsessão não é apenas minha. É também dos grandes jornais, impressos e televisivos. Só falam dele. Dedicam páginas e mais páginas; horas e mais horas de imagens às suas diatribes e corpinho de moinho holandês. O midiático Trump encontrou uma ácida e eficiente forma de alugar nossos ouvidos, olhos e mentes. Não há um dia em que ele não seja a cara do dia, a estrela do dia, a tragédia do dia. Ele nos sequestrou. Até quando?

Esperar Godot, desde que os vagabundos Estragon e Vladimir se dispuseram a esperá-lo, num palco cujo cenário tem apenas uma árvore seca, virou a metáfora de todos nós. O que, na verdade, esperamos? Nem sabemos, se formos sinceros com os nossos botões. Godot, mesmo ausente, vem ao nosso encontro. Só Deus tem esse poder, apesar de ausente também. Ah, as metáforas! Só há uma diferença: Godot deixa rastros, no palco, no livro, em nós. Trump não alcançou essa onipresença, mas tenta. Por enquanto, a mídia se encarrega de torná-lo assim, seja servil ou crítica. Trump não terá, depois deste, outro mandato. Virou espírito livre que obedece apenas a si mesmo. O dono de cassinos está se transformando numa grande interrogação, que aumenta suas apostas a cada tomada de decisão. O que ele quer? Para onde vai? Que legado quer deixar? Ele sabe o que é legado? Ele não sabe nada.

“Esperando Godot” é a peça das peças. Teve inúmeras montagens pelo mundo. E muitas outras virão, atendendo todos os gostos. Já foi montada num presídio com um elenco de internos, performance que gerou o filme “A noite do Triunfo”, que costuma passar nos canais Telecine; foi encenada numa Saravejo dividida e sitiada, com atores de várias etnias; durante o “apartheid, só com negros atuando; com elenco apenas de mulheres. A obra é também onipresente. Sua sombra insinua-se na alta literatura e na cultura de massas; alimenta de filósofos da atualidade a trocadilhos publicitários. E aparece aqui! Godot vive porque, além de Estragon e Vladimir, é esperado por todos nós, seja no palco, seja em nossas casas, seja no bar para tomar uma cervejinha. Que o Trump jamais venha.

Cláudio Pimentel é jornalista.

Tribuna da Bahia – 21.03.2025

Nenhum comentário:

Postar um comentário