A vida copia o quê?
Cláudio Pimentel
Há quem defenda que a vida imita a ficção. Cresci ouvindo a máxima, sempre dita em voz grave, por parentes, vizinhos e até professores quando assistiam um filme ou uma novela e se deparavam com algo que mexia com os costumes do cidadão de bem. A atriz Leila Diniz foi um exemplo perfeito de tal distorção. Depois que apareceu nas revistas num sumário bikini, grávida e na praia, foi acusada de imoral. O ator Reginaldo Faria, no papel de um famoso assaltante, em “Lúcio Flávio, passageiro da agonia” (1977), também. Enquanto Leila, sorridente e curvilínea, ensinava como ser vulgar, Faria, loiro e olhos claros, ensinava como ser ladrão. E veja: seu personagem era real. Seus “críticos” nunca estiveram tão fora da curva do razoável.
Os dois exemplos têm 50 anos, mas nada mudou. E atribuo o fenômeno à própria TV, que explora o provincianismo, a estupidez e a mentalidade postiça das massas, subjugadas em “guetos” à mercê de toda tragédia. A maior delas é não entender o que ocorre ao seu redor ou, sobretudo, não identificar o papel da TV, que foi criada para vender sabão e não para educar. Na abominável “propaganda eleitoral” ouvi de um candidato, no programa da rádio, que ele era de “direita”. Disse, se dirigindo ao “povão”, com a verve de quem acredita que ser de direita é uma virtude que o diferencie dos demais. Um atributo. Não é. Direita é o termo que se dá, desde a Revolução Francesa, aos políticos que defendem as classes ricas. O tal candidato não merece sequer o voto da mãe.
É um mal do Brasil? Não. É do mundo. O candidato à presidência dos EUA, pelos Republicanos, Donald Trump, disse, nesta semana, no debate com a candidata Kamala Harris, dos Democratas, que os imigrantes, a maioria latinos, que entram no país são bandidos e estão comendo os cachorros das famílias norte-americanas. Tem muito brasileiro aí. Como é possível acreditar nisso? Que pessoas são estas que seguem um cidadão capaz de proferir tamanha barbaridade? Só não me sinto pior, porque vivenciamos algo parecido há pouco tempo: o ex-presidente acusava a vacina contra o Covid de transformar pessoas em jacaré. Acredito até que era uma brincadeira, de mal gosto é verdade, mas certos cargos não permitem tal liberalidade. É um deboche à presidência. E à população.
Desconfio que o cotidiano, depois do advento das redes sociais, mudou o jeito de fazermos julgamentos. Ninguém mais tem certeza do que é certo ou errado. Ninguém se arrisca a opinar. E isso ocorre porque é o arbítrio da rede social, seus robôs e influencers que vão definir o que será aceito. O ano de 2024, porém, está servindo para desmascarar a importância deste personagem atroz, o “influencer”, que, da noite para o dia, enriqueceu, virou celebridade e passou a ditar como as pessoas devem se comportar, quem gostar e quem odiar. Estão sendo desacreditados ora por lavagem de dinheiro, ora por envolvimento em organizações criminosas que atuam com armas e drogas, ora por servirem de plataforma à corrupção e ao estelionato. A maioria de militantes com viés conservador.
Deixemos claro: é a ficção que imita a vida. E nominar vida nesse ambiente significa incluir todos. Somos nós que damos subsídios à ficção. O nosso comportamento é a matéria-prima da ficção. Somos nós que estamos sendo observados pelos cientistas sociais e pelos artistas. É a sensibilidade deles que vai nos retratar e expor nossas mazelas e nossas virtudes a nós mesmos. As instituições são retratos da sociedade. E nós não estamos separados dela. A imprensa é conservadora porque a sociedade é conservadora. Precisamos crescer para que a sociedade cresça. Costumo perguntar: qual é o sentido da vida? Não sei. Talvez transmitir conhecimento. Passar para outras gerações o que aprendemos. Desde a primeira vida na Terra é assim. Primeiro uma célula, depois duas, depois mais... Isto é evolução.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 13.09.2024
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